Quem sou eu

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“Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..." (Clarice Lispector)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Ontem.

Sinto que não sou a mesma. Parte de mim ficou nas mãos de ontem. Perdeu-se. Perdi-me. Não sei se ainda posso me resgatar, mas a ideia de remendar-me, é repudiante. Preciso de mim por inteiro. Essa parte que se foi, fatalmente, logo me faltará.

Faço uso de uma licença hipotética para chorar palavras desalinhadas numa prosa poética repetitiva, cansativa e com um quê de patética. Corro o risco de ser chata, mas ontem mostrou-me que os chatos podem ter vez. Chatos também têm seu momento de glória, ao contrário dos despedaçados. Ontem desafiou Cazuza e mostrou a céu aberto, para quem quisesse ver: há sim perdão para os chatos.

Ontem não foi cruel só com Cazuza, foi comigo também. Ficou com uma parte minha, que eu nem reconheço qual ainda. Mas já me faz falta. Pior é que creio ter sido por pura impureza, só por maldade, quis me atingir. Logo eu, que o recebi de braços abertos, quando ainda era amanhã... Acho que foi isso. Ansiei por ontem, criei alguma expectativa, e ele sentiu-se pressionado. Pronto, mistério desvendado.

Quis que ele fosse um hoje especial, como tantos outros foram, e se orgulharam de ser. Mas já que, por força das circunstâncias, não pôde me encantar, resolveu me mutilar só para marcar. Ah, ontem... A gente podia ter funcionado. Seríamos uma grande parceria, pena que optamos por sermos adversários. Podíamos ser gozo e orgasmo, mas acabamos em lágrimas.


Hoje, coitado, já chegou em desvantagem. Não tem tudo de mim, como ontem teve. Ainda estou em fragmentos, procurando descobrir qual parte de mim ontem reteve. Os próximos hojes, aliás, não me conhecerão como ontem conheceu. Acho que, no fim, ontem obteve seu sucesso. Marcou- me, assim como desejara, e ainda mais do que esperara.

domingo, 28 de abril de 2013

Amor.


     Às vezes, tenho a impressão de que não caibo em mim. Essa falsa sensação de amplidão se dá pelo amor que não sabemos se temos, criamos, usamos ou libertamos. É sentimento demais pra pouca matéria. E sentimento forte, ardente, latente.

     É um desses amores ensandecidos que de tanto amar, fica doentio. Pulsa-me o órgão amador, corre-me o sangue quente e lateja-me o impulso de repetir incansavelmente um: “eu te amo!” gritado, quase que esbravejado, aos seres amados.

     Amor que ama sem medidas  parece até agressivo, à primeira vista. Mas é tão doce e suave quando compartilhado... Quanto o mais profundo dos amadores pode ser amado. Assusta aos desavisados, pois serve-se de uma força desconhecida, mesmo aos já íntimos ao amor. Reúne toda a estrutura que os tolos juram ter, bagunça e desedifica.

     Amor desenfreado é mais eficaz do que qualquer crença ou fé. Torna o elefante capaz de voar, a tartaruga capaz de correr e a águia capaz de nadar. Faz do cientista, um religioso; do filósofo, um calculista; e do engenheiro, um poeta. Realiza milagres a olhos nus e crus. Transforma demônios em santos e ateus no próprio Deus. 

    Amor, quando é amor de doer, não preenche, transborda. Amador, que nasceu para amar, não ama, abençoa. E amado, quando sabe o ser, não só recebe, mas também reflete.

Caminhos.


            Amor, eu sei que os caminhos são muitos, as andanças são longas e os perigos, variados. Eu sei que se perder é mais fácil do que se encontrar. Que seguir é mais fácil do que desviar. Mas, acredite, vez ou outra, é necessário dificultar.
     Nem sempre haverá um muro ou uma pedra que te impulsione a escolher outra via, mas te peço, meu amor, para pensar diante de toda e qualquer bifurcação. A rua pode ser menos iluminada, ter chão de terra, parecer mal frequentada... E ainda assim, resultar no melhor destino. Atalhos, como se sabe, são falhos. Lanternas podem consumir as pilhas por completo. A precaução que se leva, por vezes, pode ser pega desprevenida.
     Não preocupe-se por antecipação. Vá vivendo, contornando, e se cuidando. Leve consigo somente o que puder carregar, apenas tudo aquilo que descreve tua essência. O que se excede, se te pesa ou te sobra, deixe pelo caminho. O que não te serve pode completar bagagens alheias, então, não guarde por insistência.
     Quanto à mim, estarei neste ou em qualquer outro novo “aqui”, aguardando o seu retorno. De casa, braços e coração abertos. Entendo que, quando muito se ganha, é inevitável perder-se. E, caso um dia, você seja muito mais do que eu possa suportar, rogo para que volte para me buscar. Não me deixe pelo caminho, meu amor, junto às tralhas que não pôde carregar. Peço que volte, retire-me dos abismos de mim e refaça a caminhada, me ensinando também a caminhar. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Carta


Tenho tido uma vontade constante de te escrever. Acho que você merece saber o quanto te fiz meu, apesar de não ter bem certeza de que você iria gostar ou se preocupar. Talvez todo esse te querer tão bem e comigo, tenha te assustado. As pessoas não estão acostumadas a receber doçuras e amores despretensiosos.

Mas ainda assim... Ainda que você tenha se afastado conscientemente, ainda que prefira seguir por caminhos alheios ao meu, ainda que me proíba de viver você. Ainda acho que deve causar algum tipo de felicidade saber que se existe em alguém como você existe em mim.

         Por isso, eu te digo agora que tenho te vivido. E tenho feito isso da forma mais plena e bonita. Te guardo em mim, te penso, repenso, trepenso e te poesio o dia todo. E (re)conheço a felicidade de te ter na minha cama a cada dia, desde aquele único dia. 

Não saber


Você não vai saber de nada além daquilo que eu digo. Nunca soube sequer ler os meus olhos. Quiçá me decifrar. Você não vai saber se minto. Você não vai saber o que sinto. Você não vai saber se sou sua, nem se alguma vez deixei de ser somente minha. 
Você nunca saberá o quanto me perturbava diariamente. Nunca ouvirá alguém dizer o quanto eu ficava transtornada, mesmo sem saber o porque. Até rompi com uma amiga, a mais próxima no nosso tempo. Fizemos o jogo do: quem machuca mais? E ambas se perderam. Tudo isso por culpa do vinho indigesto que vocês tomaram na casa dela, ao som do silêncio da minha ausência.
Você não sabe, nem seria eu a te contar, que os nossos encontros casuais me enlouqueciam. Vivia uma semana inteira de frio, chuva, choro fácil e riso travado. Você me transtornava. Não sei o que me doía mais, a falta de você nos intermináveis dias ou lembrar da sua existência vez em quando. Volta e meia ouvia a música que nos canta e constatava que ela não ditava uma promessa, nem se fazia profética.
Você não soube e jamais saberá que pedi aos santos e orixás que te afastassem de mim.  Eu era puro desespero disfarçado de paz. Implorei que me permitissem seguir sem você. Que impedissem qualquer cruzamento em nossas vidas. Que nós nunca mais nos víssemos. Que eu nunca mais soubesse de você. Que não houvesse mais a gente. Parece loucura... E realmente é. Deve ser algum tipo de excesso de sobriedade. Consciência demais faz a gente surtar mesmo.
O que você sabe já, é que não funcionou. Nem os santos me pouparam de você. Poderia culpar o acaso ou o destino, mas o verdadeiro (ir)responsável por isso foi você, que continuou a me ligar com o passar dos anos. Mesmo quando não havia assunto. Mesmo quando não havia mais semelhanças. Mesmo quando parecia não haver nem mais discordâncias.
Agora, você sabe o mesmo que eu. Que estamos à mercê do destino e de nossos caminhos tortuosos. Quanto mais se anda, mais se desencontra, e mais se aproxima. Como pode? Matemática confusa a nossa. Vidas complicadas as nossas. Corações orgulhosos esses nossos.

sábado, 13 de outubro de 2012

Eu sei


Eu sei
Que é pra frente que se anda
Mas eu mais pareço um caranguejo
Tento sair, fugir, partir
Mas é só o passado que eu vejo.

Eu sei
Que para ser feliz, é preciso se abrir
Mas quanto mais forço o casulo,
Mais me enterro em dez, cem,
Mil bonecas russas em mim.

Eu sei
Que a fé de alguém já moveu montanhas,
Que quem acredita sempre alcança,
Mas comigo isso não funciona.

Eu sei
Que dor de amor dói no coração,
Mareja os olhos e inspira canção.
Mas em mim, não.
Machuca o estômago, fere como úlcera
Parece mais doença ao invés de paixão.

Eu sei
Que não gosto de poesia
E rima me irrita,
Mas é pra ela que eu corro quando vem o grito
E no sufoco,
Permito-me destrinchar frases mal formuladas
Em rimas pouco pensadas.

Eu sei
Que desejo um conto de fadas,
Uma história pra contar emocionada,
Uma música pra me sentir embalada
Mas na minha tragicomicidade,
A comédia rouba a cena de romance
E eu acabo sempre frustrada.

Acabou


               Acabou. Já não há tristeza, ansiedade ou vontade. Os olhares que outrora se encontravam, agora sequer se procuram. Já não há expectativa, nem suposições. Os codinomes e metáforas se perderam em meio às entrelinhas. Não, já não há beleza nem alguma poesia. Acabou até mesmo minha energia.
                O sentimento que me faz vigília imperante é a frustração. E, sinceramente, eu nem tenho tentado resistir. Não que eu curta a dor, como os poetas mal amados costumam insistir. Mas eu aprecio demais a reciprocidade para dar-me por satisfeita com as migalhas que me tens oferecido. Aprendi a ser assim. Depois de tanto amor não recebido, a gente aprende a perceber quem é fonte e quem secou. E você, sinto dizer, jamais jorrou amor.
                É justamente o que preciso: um laço infindo. Então, não adianta te procurar, me estreitar, nem tentar nos acertar... Não funcionará. Estamos fadados a não ser, é um fato. Posso tentar me inspirar no seu comodismo e chamá-lo de paciência. Bem, se você o chama de bom senso, chamo também o meu como quiser.
                Acabou. Se não há borboletas desnorteadas no estômago, perde o sentido. Se não me deixa tonta, cadê a graça? Se faz sofrer, já não tem porquê. Acabou o eu e você que nunca nos tornou nós. Não aconteceu porque não haveria de acontecer. E não, eu não vou mais tentar te - ou me - convencer de que ainda pode ser. Acabou.

Go Back.

       Vontade de chorar, gritar, espenear. De criticar e xingar, mesmo a quem não se pode culpar. De socar até a parede do quarto. De se ferir fisicamente, pra ver se a dor de dentro passa.
       Vontade de recorrer àquelas resoluções que nunca são resolutas, de não pensar, não ligar, não procurar. Quero não mais te querer, não precisar disfarçar, não fingir, não ter que sorrir. Não esbarrar nela, baixar os olhos, nem me culpar. Quero mesmo é te vomitar, te cuspir, te expurgar.
        Vontade de voltar à vida pré-você. De não te esquecer, por não te lembrar. Vontade de arrancar as páginas da agenda, como se você não tivesse havido. Vontade de recomeçar de onde me parei em você. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Liberdade (?)


                Liberdade sempre me pareceu uma palavra de conceito indefinível. Acho estranho como as pessoas vulgarizam o sentido dela, caracterizando como livres tantos diferentes tipos de prisões.
                Primeiro que conceituar liberdade por si só, já é uma ação fracassada. É o mesmo que mutilá-la, descaracterizá-la. Para ser livre, é preciso espaço, direção própria e caminho desconhecido. Não se pode ter amarras, limites ou preconceitos. Tudo isso me soa bastante contraditório, já que o ser é, em sua essência, dependente e atado a diversos estigmas.
                Dizer que se vive em liberdade é bonito  e até nos remete a uma ideia de democracia. Erroneamente. Nossa democracia tem tantos furos quanto essa liberdade que nos é licenciada. Somos controlados o tempo todo, principalmente de cima para baixo. Sim, a pseudoliberdade democrática brasileira funciona de ordem hierárquica. Contraditório, não?
                Voltando ao termo cru liberdade, penso em Clarice Lispector, que costumava se referir à mesma quase que isoladamente como um estado de espírito. Então, estar livre representaria uma condição social, enquanto ser livre, uma condição pessoal. Parece agora fazer algum sentido. Mas continua contrastando com o perfil de sociedade vigente. Seria possível sentir-se livre em meio à tantas regras e imposições? Honestamente, eu desacredito.
                Vejo a liberdade, como funcionamento mental, condição de existência humana. Acontece somente dentro da cabeça de cada um. Não somos capazes de executá-la de fato ou não a definimos corretamente. Ou vai ver, está tudo certo, e eu quero mais do que a liberdade pode ofertar. Talvez eu seja mais fiel à Clarice do que penso, quando ela diz: “Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome.” 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Falta sua.


Sinto sua falta como uma parte desprendida de mim. Perdida, mas não esquecida. Sinto sua ausência quase tanto quanto sua presença e costumo enlaçar-me em meus braços, na tentativa de resgatar algum qualquer resquício perdido seu.
Mas você não me deixou nada. Nem um olhar, um cheiro, gosto ou lembrança que seja viva. Não me deixou o beijo inesquecível, nem nossa música preferida. Não deixou nada a que eu agora pudesse me apegar para não morrer na sua falta.    
O que você deixou fui eu. Numa nova versão do que costuma ser. Mais romântica, reclusa e menos acessível. Você me deixou esse incessante blues no coração. Não faço outra coisa além de te esperar, e vez em sempre, bate a dúvida se devo tentar te procurar. Insistem em dizer-me que é preciso não esperar, para que você apareça. Mas eu não conseguiria. Te espero enquanto te escrevo, e sinto que a cada palavra essa nossa distância encurta. E te chamo. E te busco. E te amo, mesmo sem te conhecer. Mesmo sem saber como nos viver.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dupla Face


              

                Às vezes é difícil perceber no que acreditar. Tem gente que tem mais fases do que a lua e se transforma mais do que borboleta. E aí, é inevitável se questionar: as pessoas mudam, ou apenas fingem?
                Tenho em mente que ninguém é uma coisa só, nem tem apenas uma versão. Todos somos contraditórios, mas no quesito opinião. Quando se trata do ser, não penso assim. Ou é ou não é. Pulsa ou não pulsa. Toca ou não toca. Me soa estranho quando alguém sofre ou me causa diversas variações.
                Desconfio de quem me faz mudar muitas vezes de visão. Hora companheira, fofa, doce, sentimental. Hora calculista, observadora, analítica, antipática. Se pararmos pra refletir, matamos a charada. Quem tem falsidade consegue se passar por ingênuo, mas quem tem pureza não se passa por esperto. Pronto. Face descoberta.



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Aparar as Pontas


Esse desejo de mudar a vida, de crescer, fazer, acontecer e principalmente, ser, é também um desejo de morte. Tenho vivido um desejo forte de matar tudo o que atrapalha essa minha caminhada. Morrer um pouco pra voltar ainda mais viva, é necessário, eu acho.

Vontade de matar essa preguiça, essa preocupação com desimportâncias, esse querer inerte. Vontade de assassinar (com requintes de crueldade até) as roupas que não servem mais, os sapatos que machucam e as pessoas que não acrescentam... Antes que elas me matem! Vontade de atirar pela janela tudo que me atrasa, inclusive o relógio. Vontade de resgatar o tempo que não perdi, para abrilhantar o que ainda há por vir.

Minha vontade, na verdade, é apenas de viver. E viver bem. Se para isso, for preciso matar ou morrer um pouco, assim farei. Dizem que quando cortamos as pontas do cabelo, ele cresce mais rápido e mais bonito. Com gente também funciona assim. É necessário “aparar” o que não presta, para seguir. E seguir melhor. Seguir com força, brilho, e muito mais vida.





segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Meu Amor


   

      Tenho levado meus dias no automático... Não estou sabendo viver de outra maneira. Sinto falta intermitentemente do meu amor.  Tudo dele que há em mim, me dói de uma maneira absurda. Corrói o que tive de fé e oculta o que tenho de amor.
         O cheiro do meu amor não é doce, forte, nem suave. É só dele. É algo inexplicável. Me parece chocolate, terra molhada, maresia, bolo saindo do forno, café e chiclete de hortelã. Aquilo que eu chamaria de combinação perfeita. A minha melhor combinação.
        O toque do meu amor também é só dele. Em algumas vezes, delicado e cuidadoso. Parece temer que eu quebre. Sinto-me sua grande preciosidade. Ele me olha como só existíssemos nós no seu mundo, e me beija como se cada um fosse o último. Por outras vezes, o olhar é de fome, o beijo devorador, a pegada de bicho e parece mesmo é que a intenção é me quebrar. Não sei dizer qual dos momentos prefiro... Meu amor sabe dosá-los como ninguém. Acredite, você também iria se apaixonar.
        Meu amor é o que tenho de mais maravilhoso. É verdadeiro, íntegro, inteligente, divertido, visceral e tem uma relação com seu violão que só não é mais intensa do que a nossa. Ele tem uma voz que me arrepia, um olhar que me toca e a gargalhada mais gostosa de se sentir. 
        Reconheceria o meu amor mesmo virado ao lado avesso e sem fundo musical. O perceberia no olhar, na pele e no coração. Acho que quando a gente encontra o amor, não sente dúvidas. Simplesmente sabe. Alguma coisa deve palpitar, avisando.
        Por isso, ando com atenção. Se o meu amor passar, o apito soa e eu o seguro depressa. Pode ser que ele passe do outro lado da rua. Pode ser que passe por entre meus amigos. Pode ser que passe por meu dia a dia. Se passar por mim, fica. Não passa mais por outros olhares. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Medo


              A vida não tem andado fácil. Nunca fora, eu sei, mas esses últimos dias têm sido ainda mais complicados. Tenho sentido tanto medo... Medo de morrer e de viver; medo de rir à toa e de não ver graça em nada; medo ser sensível demais e de endurecer; medo de acreditar e de desconfiar; medo de me entregar e de travar.
                Não pense que está sendo fácil escrever sobre isso. Estou mexendo no que há de menos louvável em mim, que é esse medo constante das inconstâncias da vida. E, ao contrário do que pensam os não- escritores, destrinchar dores em palavras não alivia. Abre ainda mais a ferida.
                A realidade parece enlear-se cada vez mais com a vontade, aumentando minha insegurança. No fim das contas, já não sei distinguir uma da outra. Não sei apontar o que vejo, o que desejo ou o que sinto. Tudo se mistura numa maçaroca indefinível de achismos e impressões.
                Se alguém me pergunta como foi determinada situação, já descrevo com a cautela e loucura de quem analisa palavra por palavra, para não ser mal compreendida. Não satisfeita, repito as partes relevantes reiterando não ter certeza daquilo que presenciei. Aliás, certeza é uma palavra extinta do meu vocabulário. Sinto um medo quase mortal de não ser fiel aos fatos.
                Deve mesmo ser algum tipo de piração. Quem se reconhece como são provavelmente tem alguma consciência do que viu e do que diz. Eu não. Acho que tudo pode não passar de um mero erro de interpretação. É de enlouquecer, e acho realmente que, aos poucos, despeço- me da pouca sanidade que tive.
                Tento arduamente me ater aos fatos vivos. Óbvios e imutáveis. Mas o que se caracteriza assim? Sempre haverá entrelinhas, indiretas, olhares furtivos, sorrisos disfarçados, palavras não ditas... Sempre. As relações por si só nunca são sós.
                E, por mais que eu me esforce, não consigo ficar em paz. Tem também sempre um quê de “as-coisas-não-estão-certas” que eu não sei perceber, quanto mais resolver. Tem sempre um bolo na garganta, lágrimas nos olhos e coração disparado. Tem sempre uma dúvida entre o que se sabe e o que se sente. E tem sempre o medo de estar deturpando a vida.      





segunda-feira, 30 de julho de 2012

SER


            Eu sei é que às vezes dói ser o que a gente é de verdade. Devia facilitar, eu acho. Mas dói. E eu também sei que grande parte dessa gente que circula solta pelas ruas não é o que é. É o que quer ser, o que pensa que deveria ser, ou qualquer outra coisa. Guarda o que é lá no fundo e finge sequer conhecer o que era pra ser. Joga poeira no que é e traz à tona a imagem que quer.
            Essa gente toda deve saber a dificuldade do que é ser o que se é. Não deve ter peito e alma abertos para enfrentar- se a si próprio. Exige coragem, força e doação. Talvez exija alguma inocência nesse conjunto. Ou ainda falta de inteligência. Porque, apesar de tão admirados os que são o que são, não são copiados, nem servem de inspiração.
            Por isso, digo para essa minha gente que é o que é: cuidem-se. Assumir-se diante do mundo, é pôr o coração nas mãos e oferecer praquela enorme gente que finge ser o que não é. É despir a alma e entregar-se ao desconhecido. Por vezes, machuca que sangra e corrói. Mas há de ter alguma recompensa. Há de sentir-se um amor inenarrável. Há de se viver, no sentido mais literal da palavra. Há de se transbordar a felicidade que não alcança quem se esconde por detrás daquilo que não é.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tanto de nada


Acredite, ele ainda pensa em você todos os dias. E te sente. E te sofre. Te vive e revive a cada minuto. Mesmo não te procurando. Mesmo fingindo estar tudo bem. Você não é passado, é presente. De grego, presente ingrato, mas presente. Queria ele poder voltar no tempo e te devolver... Ah! Quem o dera as coisas fossem tão simples assim.

É difícil de acreditar, quando más línguas já foram te informar sobre como ele está. O registraram em tantas noites, com tantas mulheres, distribuindo tantos sorrisos. Mas homens são assim mesmo, ele te diria. Homem que é homem não curte sofrimento gratuito. Homem de verdade não fica em casa, chorando pela mulher que não tem. Homem vai para a rua, conquistar novas. É esse o processo, você devia saber.

Mas não se engane, menina. Esses sorrisos são sofregamente estampados. Imagine ter que forçar 28 músculos concomitantemente durante uma noite inteira. É esse o preço que ele paga por desfilar a felicidade que não tem. Além de ter que se fazer interessante e interessado pelas mulheres que tão pouco o interessam. Ele não deixa de te viver nem por um segundo, apenas cumpre a fachada social que precisa aparentar, por ser homem.

Você jamais ouviria a respeito de sua reclusão, tristeza profunda, nem amor sentido. Ele nunca se permitiria ficar em casa, ouvindo música e lembrando vocês. E você sabe disso. Aliás, foi por esta faceta pela qual se apaixonou. Viu nele masculinidade, virilidade, desprendimento, e se encantou.

Querendo te acalentar, acho que acabei por piorar tudo. Dor doída na gente, dói. Mas dor doída no outro, fere a alma. Afinal, o que incomoda mais? Pensar que ele não te sente, pois já te superou, ou que te vive diariamente? Porque é isso, acredite. Ele te sente. E te vive. E te sofre. Mas te mente.



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Expurgo


Não irei repetir isso. Foi a última noite de erro consecutivo. Não mais te procurarei, nem corresponderei. A brincadeira disfarçada de ingênua, fadada ao desastre, registra hoje seu game over. Prematuro, mas inadiável, o fim do que nunca começamos pisca num neon ofuscante de letras garrafais.

Agora com alguma clareza, percebo que você mesmo talvez o tenha posto à minha vista. Sempre atiçando, mas sempre se esquivando, numa dança patética e fora do meu ritmo. Mostrava que me queria, e fugia quando podia. Só eu, iludida, para ainda sequer pensar em te procurar.

E era o que eu fazia. Corria para a praça dos que cantam, passava pelos bares dos tantos que dançam, cruzava sons de samba, funk, jongo, MPB... E nada de você. Via rostos conhecidos e queridos por você, camisas suas, barulhos seus, bebidas suas, mulheres suas, lugares seus, mas me faltava o seu olhar. Aquele que me desnuda. Aquele que me arrepia. Aquele que me intimida. Aquele pelo qual venho buscando nas noites há dias. Aquele que se perdeu de mim e fez com que eu me perdesse também.

Fiz uma ideia bem diferente de você. Soube de suas muitas mulheres e de seus poucos amores, então, te projetei uma liberdade emocional que não se mostrou real. De fato, você não está algemado, mas encontra-se mais enlaçado do que percebe. Ou, ao menos, do que se permite transparecer.

Por falta de força, embora não de vontade, estou te expurgando de mim. Só te peço que deixe de me perturbar. Chega de Cartola, Bethânia e Chico, pois eles não poderiam ser testemunhas de um encontro que nunca esteve às vésperas de acontecer. Chega de um “ah, se eu vou” que nunca vai. Não me faça salivar, se não poderei degustar, não me olhe faminto, se não haverá banquete. Eu não aguento. Mentiras sinceras até podem me interessar, mas raspas e restos, não. Eu dispenso.




quinta-feira, 5 de julho de 2012

Talvez seja isso.


Às vezes, vejo- te como ilusão. Talvez porque foges de mim ou quando apareces sem fim, sei lá. Só sei que me embaralhas como jamais pude imaginar. Vejo- te ali e ao me certificar, já não estás mais. És difícil de acompanhar.

Penso que te projeto em meu olhar. Talvez tu estejas dormindo ao invés de passear. Pois não vejo propósito, apenas observo-te caminhar tão próximo... Quase ao meu alcance... E, ao piscar, a realidade renasce e o desejo se desconstroi. Não estais lá.

Talvez jamais estivestes, ou ainda talvez meu frágil ser tenha registrado- te uma única vez e agora reflete, num querer eloquente, teu andar preciso e misterioso projetado de minha mente. Talvez seja qualquer um desimportante, mas meu querer transforme-o em ti. Ou talvez sejas tu mesmo, me escapando com tamanha facilidade, que sequer parece existir.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

Clara




Era ela Clara. Clara de pele. De olhar distante, beleza opaca, sorriso apagado e verdade duvidosa, era ela misteriosa. Sem qualquer clareza em sua essência, era Clara condenada a fingir vida advinda de sua alma abortada.

Funcionava tal qual um espelho, vivia por imagem invertida. Era o exato reflexo daquilo que não era. Esbanjando doçura e assombrando por tamanha delicadeza, era Clara pura mentira. Forçava- se diariamente a amar, a detestar, a preferir. Não conseguia. Sem qualquer sensibilidade, era ela desprovida de vida.

Tinha ela uma falta de fé inabalável. Pois só tem fé quem acredita. Só acredita quem sente. E sentir... Sentir não era coisa de Clara. Era ela fria, dura e inquebrável. De simplicidade comovente e transparência contestável, era Clara outra Clara, que não ela.

Passava tanto tempo fingindo, que quando podia apenas ser, dormia. Clara era exausta por não se bastar por si. Mas pior do que não sentir seria explicar o não- sentimento. Num mundo de gente que transborda uma felicidade inexistente e que se autocomisera pela tristeza que não sente, não haveria de ser Clara a única diferente.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tardia


Mesmo adulta, ela às vezes sente-se carente, órfã até. Procura o colo da mãe, o conforto da casa dos pais, o cheiro de lar. Corre atrás do que a fez menina, e se esquece de que já é mulher.
Ela não sabe se por insegurança ou por carência, mas tem sido muito difícil caminhar por suas próprias pernas. Talvez elas ainda sejam um tanto curtas... Ou talvez seja o caminho demasiado longo. O fato é que tem sido exaustivo, conflituoso e doloroso seguir por novas trilhas.
Vez em sempre, o coração aperta e ela corre de volta, como uma criança mimada. Regride tudo o que havia progredido, mas não se arrepende, porque continuar por ali é bem melhor. Recarrega-se e volta a andar. Os pais, aliás, têm essa mania: cismam que os filhos devem ir. Mas para que isso? Tudo o que ela quer é ficar.
Ela segue em passos de formiga e sem vontade. Sente mais medo do que jamais pensara sentir. Medo da estrada, das bifurcações, das companhias, da solidão, do destino final. Cada passo seu, é uma grande vitória, acredite. Significa que por um segundo, foi forte o suficiente para continuar.
Mas aí, vem a chuva. Não aquela chuva que aprecia- se quando vista da janela de casa. A chuva do lado de fora, é sentida na pele. Os fortes pingos gelados, unidos ao vento frio, desencorajam- na a seguir, então, ela para. Congela, enquanto a chuva desaba sem trégua.
O pânico cresce, e a mulher esquece que é mulher, pensa que é menina e volta correndo para casa dos pais. Quer o colo da mãe, o urso da infância e a cama com cheiro de lar. Volta para aquilo que se propôs deixar para trás. Depois ela amadurece, amanhã, quem sabe. Mas agora não. Está escuro lá fora... Espere a chuva passar.